Geminiviroses ou begomoviroses no tomateiro: as terríveis ameaças transmitidas pelas moscas-brancas

Jorge Massaki Hasegawa, DSc

Knowledge Transfer Lead – SAM/ CAMCAR

Geminiviroses ou begomoviroses no tomateiro: as terríveis ameaças transmitidas pelas moscas-brancas

As geminiviroses ou begomoviroses são complexos de vírus de plantas da família Geminiviridae transmitidas frequentemente pela mosca-branca Bemisia tabaci e se constituem como doenças reemergentes na cultura do tomate, especialmente nestes três últimos anos nas principais regiões produtoras de tomate do Brasil. Parte da agressividade recente desta doença é explicada por condições favoráveis ao vetor, como altas temperaturas e baixa umidade relativa do ar, presença constante de plantas daninhas hospedeiras do vírus e da mosca-branca, utilização de cultivares suscetíveis e perda de eficácia de inseticidas pela ausência de rotação de modos de ação.

No Brasil, mais de dezesseis espécies de begomovírus estão relacionadas ao patossistema tomate-begomovírus: Tomato severe rugose virus (ToSRV), Tomato yellow vein streak virus (ToYVSV), Tomato chlorotic mottle virus (ToCMoV), Tomato common mosaic virus (ToCmMV), Tomato interveinal chlorosis virus (ToICV), Tomato bright yellow mosaic virus (ToBYMV), Tomato golden leaf distortion virus (ToGLDV), Tomato golden leaf spot virus (ToGLSV), Tomato bright yellow mottle virus (ToBYMoV), Tomato golden mosaic virus (TGMV), Tomato golden vein virus (TGVV), Tomato leaf distortion virus (ToLDV), Tomato mild mosaic virus (ToMMV), Tomato mottle leaf curl virus (ToMoLCV), Tomato rugose mosaic virus (ToRMV), Tomato yellow spot virus (ToYSV) e Tomato yellow leaf curl virus (TYLCV). Dentre as espécies predominantes da família Geminiviridae na cultura do tomateiro, está o Tomato severe rugose virus (ToSRV) na região Centro-sul, que também se encontra em espécies de outras famílias como a soja e em uma grande variedade de solanáceas como a berinjela, a batata, o pimentão e plantas infestantes como a Nicandra e o Chenopodium. Na região da Caatinga nordestina, o Tomato mottle leaf curl virus (TMoLCV) sempre se apresentou como de maior predominância, enquanto a espécie Tomato common mosaic virus (ToCmMV) é a predominante na Zona da Mata de Minas Gerais. Recentemente, no ano de 2024, a espécie Tomato yellow leaf curl virus (TYLCV) foi diagnosticada na região de Faxinal no estado do Paraná.

As medidas de manejo da enfermidade sempre se iniciam pela correta identificação dos sintomas no campo, que exigem a utilização de métodos moleculares como a PCR para se determinar precisamente a espécie presente no campo. Muito embora a identificação visual seja irrelevante para fins de diagnóstico, alguns sinais e sintomas são determinantes para se suspeitar da presença do geminivírus no campo:

  1. Presença da mosca-branca na forma de ovos, ninfas, adultos ou da fumagina sobre folhas e frutos de tomate;
  2. Plantas afetadas com padrão inicial de dispersão do tipo “esparramado” no campo,  muitas vezes com plantas doentes isoladas na área, em pontos distintos;
  3. Folíolos das plantas afetadas com tamanho reduzido e amarelados nos ponteiros da planta de tomate ou nos brotos novos.
  4. Os frutos perdem o brilho característico, apresentando uma cor amarelada-alaranjada, com maturação irregular e perda de tamanho, comprometendo a qualidade e a produtividade da lavoura, mas não há sintomas de frutos necróticos ou com podridão;
  5. As plantas não se desenvolvem, mostrando-se mais baixas, com menor recobrimento das folhas e aspecto tendendo a amarelado.

Manejo integrado das Geminiviroses transmitidas pela mosca-branca na cultura do tomate

O manejo do patossistema tomate-geminivírus é bastante exigente porque envolve a complexidade de três componentes muito variáveis: a diversidade das espécies dos geminivírus e a dinâmica populacional das moscas-brancas virulíferas em um ambiente igualmente dinâmico e desafiador. Nesse sentido, as principais medidas de manejo exigem cumulativamente a adoção de práticas mutuamente inclusivas em consonância com os princípios de Whetzel: 

  1. Adoção de cultivares resistentes que se baseiam na expressão de genes Ty. Híbridos como o tomate Comandanty e o TY2006 apresentam bons níveis dentro de um sistema de manejo integrado da mosca-branca e da virose;
  2. Evasão do plantio em janelas de cultivo ou regiões com histórico pronunciado da doença e de localidades com alto risco de transmissão primária da doença. É importante evitar a convivência de roças velhas contaminadas com as novas, assim como a proximidade das roças novas com áreas vizinhas com histórico recente da doença;
  3. Dentro do possível, eliminar plantas infestantes hospedeiras que podem servir de inóculo da doença, como o joá-de-capote (Nicandra physaloides), diferentes espécies de guanxuma (Sida spp.),  amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla) e maria-pretinha (Solanum nigrum). Ainda, o ideal é que haja um distanciamento espacial ou temporal da área de cultivo do tomate de culturas de importância econômica com alta atratividade à mosca-branca como mandioca, algodão, melão, feijão, repolho, entre outras;
  4. Rotação de culturas com a adoção de espécies de plantas não-hospedeiras dos vírus;
  5. Promoção dos mecanismos naturais de resistência das plantas a partir da interação com micro-organismos benéficos, indutores de resistência e promotores de enraizamento em solos já equilibrados fisicamente, quimicamente e microbiologicamente;
  6. Redução da população de moscas-brancas virulíferas com a integração de medidas físicas, químicas e microbiológicas.

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FAQ

Geminiviroses são doenças causadas por vírus do gênero Begomovirus, pertencentes à família Geminiviridae. No tomateiro, esses vírus comprometem o desenvolvimento da planta e a formação dos frutos. No Brasil, a incidência da doença aumentou significativamente após a chegada do MEAM1 (Middle-East-Asia Minor 1) da mosca-branca (Bemisia tabaci) na década de 1990, e hoje a doença é considerada uma das principais ameaças à tomaticultura nacional.

Os sintomas mais frequentes incluem mosaico, mosqueado, clorose internerval, enrolamento das folhas para cima, redução do tamanho das folhas e nanismo da planta. Em infecções precoces, os danos à produtividade são mais severos, podendo comprometer totalmente a lavoura. Frutos de plantas infectadas podem apresentar tamanho reduzido e maturação irregular.

A principal distinção está na combinação de sintomas: o enrolamento foliar para cima, juntamente com mosaico e redução da área foliar, é bastante característico das begomoviroses. Viroses como o Orthotospovirus (TSWV) tendem a causar manchas necróticas e bronzeamento, enquanto as geminiviroses produzem principalmente distorção e clorose. Mesmo assim, a confirmação laboratorial por PCR é necessária para diferenciar espécies e orientar o manejo com precisão.

A mosca-branca Bemisia tabaci MEAM1 (Middle-East-Asia Minor 1) é vetor de pelo menos 16 espécies do gênero Begomovirus no tomateiro no Brasil, segundo dados da Embrapa Hortaliças. Essa diversidade dificulta o manejo porque diferentes espécies podem coexistir na mesma área e a tolerância das cultivares pode variar conforme a espécie predominante.

A transmissão é do tipo persistente circulativa. O inseto adquire o vírus ao se alimentar em uma planta infectada por pelo menos 15 a 30 minutos. O vírus circula pelo corpo do inseto e atinge as glândulas salivares após um período de incubação de aproximadamente 24 horas. A partir daí, a mosca-branca é capaz de transmitir o vírus ao se alimentar em plantas sadias, e permanece infectiva por até 20 dias.

Não. Não há relatos confirmados de transmissão de begomovírus pela semente no tomateiro. O principal caminho de entrada da doença na lavoura é através da mosca-branca infectada, que pode vir de lavouras vizinhas, plantas daninhas hospedeiras ou áreas de descarte com restos culturais infectados.

Diversas plantas daninhas presentes nas bordas e no interior das lavouras podem hospedar begomovírus e manter populações de mosca-branca ativas. Esse reservatório é especialmente perigoso no início do ciclo, quando as plantas de tomate são mais suscetíveis. A eliminação de plantas espontâneas dentro e ao redor do cultivo é uma das medidas preventivas mais importantes.

Os primeiros 30 dias após o transplantio são determinantes para o sucesso do controle da begomovirose. Infecções precoces resultam em danos muito maiores do que infecções tardias, porque a planta ainda não desenvolveu estrutura produtiva. Por isso, todas as barreiras preventivas, como telados no viveiro, controle do vetor e eliminação de fontes de inóculo, devem estar em vigor antes do transplantio.

Não. O controle químico da mosca-branca ajuda a reduzir a população do vetor, mas não elimina o risco de transmissão. Populações de mosca-branca com resistência a inseticidas já foram registradas no Brasil, o que reduz a eficácia do controle exclusivamente químico. O manejo integrado, combinando barreiras físicas, eliminação de hospedeiros, vazio sanitário e uso de cultivares tolerantes, é a abordagem mais eficaz.

O vazio sanitário é um período sem cultivo de tomate em uma região, adotado de forma coordenada entre produtores para reduzir as populações de mosca-branca e eliminar fontes de inóculo. Pesquisas da Embrapa conduzidas no Brasil Central recomendam iniciar os plantios de tomate rasteiro somente a partir de abril, quando a pressão de mosca-branca oriunda de lavouras de soja é menor. Quando adotado em escala regional, o vazio sanitário é uma das ferramentas mais eficientes disponíveis.

Não eliminam, mas reduzem significativamente as perdas. A tolerância genética diminui a severidade dos sintomas e a queda de produtividade, mas não impede a infecção. Em áreas com alta pressão de doença, cultivares tolerantes precisam ser combinadas com controle do vetor e outras práticas de manejo integrado para garantir resultados consistentes.

A suspeita visual é baseada nos sintomas descritos acima, mas a confirmação definitiva requer análise laboratorial por PCR, que permite identificar a espécie de begomovírus presente. Essa informação é importante porque diferentes espécies podem responder de forma distinta às cultivares disponíveis no mercado. Em caso de dúvida, amostras devem ser enviadas a laboratórios de diagnóstico fitopatológico credenciados.

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